A opinião única, norma na ligação poderosa de pais para filhos?
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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Deverá a cultura ser manipulada, até ao radicalismo etnocêntrico? Ou, pelo contrário, por que não caminhamos no sentido do Reconhecimento Cultural, sem lutas, sem supremacias, sem exclusivismos? Ou, ainda, tendo em conta que devido ao sonho totalitário da pureza étnica - na raiz de reiterados crimes de Estado, conforme os que se viveram no séc. XX, não aceitamos que as sociedades culturais se venham afirmando pela tal hibridação de culturas, decorrente, entre outros fatores, da generosa mistura de gentes?” (cf. CARNEIRO, 1999:43-52).
A policromia cultural avança, certamente, contra a autocracia do Estado para diluir a autoridade de homogeneidade, de ultrapassar a concepção de uma cultura oficial que, subtilmente, controla o acesso à cidadania, e de aceitar como inevitáveis a diversidade e a necessidade de construir uma nova ordem paradigmática respeitadora do pluralismo cultural.
E, se é certo que alguns Governos vivem preocupados, porque a democracia revela fragilidades, entre as quais se destaca a popularidade de novos ideais políticos e ideologias, eventualmente racistas, não é menos verdade que a coesão social se vê afetada pelos confrontos étnicos, religiosos, linguísticos ou culturais.
Um pouco por todo o mundo, os conflitos vão surgindo, as dificuldades para os resolver não param de aumentar. O recurso à repressão deixou de poder passar incólume perante a mediatização da informação e a proliferação de uma cultura de Direitos Humanos que, felizmente, hoje, não se intimida nas fronteiras físicas e políticas.
O fenómeno cultural não está, por enquanto, suficientemente estudado e aprofundado, muito embora exista uma favorável e crescente consciencialização, designadamente nos Estados Democráticos, para uma apologia de tolerância cultural, no sentido de se aceitar uma inter-relação cultural dos povos, que, no seu início, pode fomentar atitudes e reflexões sobre a importância das diferenças, e a correlativa indispensabilidade do reconhecimento das diversas culturas.
«A hibridação cultural, a partir dos movimentos migratórios, pode ser uma boa solução para atenuar conflitos, quer através da convivência interpessoal quotidiana, quer pelo relacionamento laboral, quer pela união matrimonial. "Qualquer que seja o processo: hibridações resultantes de processos migratórios; hibridações de resistência; hibridações produzidas por mercados comunicacionais sem fronteiras, haverá, contudo, que ter sempre em conta um fenómeno difícil de remover com rapidez - O Preconceito, na medida em que este procura sempre classificar o híbrido como uma traição à pureza do comportamento cultural ou à norma de configuração étnica; combatendo a intercultura, identificando-a com corruptelas do produto puro (...) da inaceitabilidade social de comportamentos considerados desviantes da norma monocultural, do desprezo por declinações populares de mistura; denegando as heranças impuras através de mecanismos silenciosos de "branqueamento" dos filhos inseridos nas normas de educação.
O pensamento único será, então, a norma na relação predominante de pais para filhos, a descontaminação tem lugar nas exigências de opção obrigatória por um modelo exclusivo - naturalmente “superior” - de valores e de comportamentos aceitáveis (...); cultivando - explicita ou tacitamente - uma cultura do desprezo ou do ódio por manifestações de "hibridação..." (...) A compreensão profunda destes processos é ainda precária. Por isso afigura-se ser insuficiente o seu conhecimento para fundamentar políticas públicas claras, que sejam dirigidas no sentido do combate ao preconceito e da valorização de sociedades complexas.
Em todo o caso, arriscaremos desde já mencionar quatro áreas que responderão ao desafio (...): a) A Acção Educativa: Trata-se de promover a democracia cultural na escola, de promover uma escola de memória, de provar que a livre expressão de culturas de um país não conduz necessariamente ao seu desmembramento, de proporcionar iguais oportunidades a todas as culturas (...); b) Os Meios de Comunicação Social: Estará aqui em causa uma política que valorize as narrativas interculturais, que crie o orgulho no diálogo bem-sucedido entre diferentes ou no encontro de povos e culturas, que evidencie as potencialidades criativas e sociais do híbrido (...); c) O Apoio a Famílias Híbridas: No quadro mais vasto de uma política do incentivo à instituição familiar importará reconhecer a especificidade das famílias mistas e o seu relevante papel como instâncias de socialização dos diferentes para a paz e para a pacificação (...); d) O Diálogo Religioso: Poucos líderes políticos ou religiosos terão averbado tantas e tão substantivas contribuições para a superação dos preconceitos destrutivos como o Papa João Paulo II. (...) Sem pacificação entre confissões religiosas será difícil alcançar os objectivos mais amplos da convivência intercultural entre nações... (...) só as contraculturas persistem em cultivar particularismos xenófobos e se comprazem em afirmar-se pelo caminho da redutora rejeição dos outros.» (CARNEIRO, 1999:43-48).
No artigo que se vem citando, pela sua pertinência e em jeito de conclusão desta abordagem ao reconhecimento dos valores culturais, importa, ainda destacar as seguintes passagens: «A fúria da extrema-direita europeia contra as etnias africanas na competição de empregos escassos não deixa de ser outro caso de incivilidade relacionado com condições económicas desfavoráveis.» e, finalmente: «Se o fanatismo cego é condenável, do mesmo modo e a título igualmente vigoroso, é de denunciar o reino do relativismo, o progresso humano demanda âncoras axiológicas de referência sem as quais ele não tem possibilidade de se direccionar nem de adquirir sentido.» (Ibid:49).
BIBLIOGRAFIA
CARNEIRO, Roberto, (1999). “Choque de Culturas ou Hibridação Cultural”, in Nova Cidadania, S. João do Estoril/Lisboa: Principia, Publicações Universitárias e Científicas, (2), pp. 43-52.
GALTUNG, Johan, (1994). Direitos Humanos – Uma Nova Perspectiva. Tradução, Margarida Fernandes. Lisboa: Instituto Piaget.
HAARSCHER, Guy, (1993). A Filosofia dos Direitos do Homem. Tradução, Armando F. Silva. Lisboa: Instituto Piaget.
KUNG, Hans, (1990). Projecto para uma Ética Mundial, Tradução, Maria Luísa Cabaços Meliço, Lisboa: Instituto Piaget.
“NÃO, ao ímpeto das armas; SIM, ao diálogo criativo/construtivo. Caminho para a PAZ”
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