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A Cruz da Severidade na Páscoa Lusa



Muito embora a esperança seja, ou deva ser, a última expectativa a morrer, a verdade, porém, é que naquela Páscoa de dois mil e catorze, não haveria muitos motivos para nos sentirmos seguros, quanto a uma desejável e legítima estabilidade, em vários domínios da nossa existência e, enquanto cidadãos de deveres e direitos, porque, “tragicamente”, quase todos os dias éramos “aterrorizados” com notícias devastadoras das esperanças, que ainda poderíamos alimentar, quanto a um futuro tranquilo e confortável.
A sociedade portuguesa em geral, e alguns extratos mais vulneráveis, em particular, continuavam a sofrer as consequências de situações para as quais não contribuíram, nem eram responsáveis. Milhões de pessoas entre funcionários públicos, trabalhadores do setor privado, reformados, pensionistas, desempregados, imigrantes, sem-abrigo, excluídos, idosos viviam (e milhares ainda continuam a subsistir) no limiar da pobreza, passando fome e frio, com falta de saúde e de perspectivas quanto a um futuro com um mínimo de dignidade humana.
A título meramente estatístico, os números atuais, nesta Páscoa de 2021, as pessoas portuguesas e imigrantes residentes no nosso país, apontam para cerca de 18 a 20 por cento de: mulheres e homens; Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos; que estarão a viver no limiar da pobreza, seja no que se refere aos rendimentos, quer quanto a habitarem em condições condignas, entre outras situações, igualmente importantes para a dignidade humana.
Naquela época, o mais alto Magistrado da Nação, teve a coragem de, em cerimónia pública, na localidade de Azeitão, no passado dia dezassete de abril desse ano, afirmar que «os sacrifícios exigidos aos portugueses foram excessivos, que existem situações de miséria intoleráveis e que é tempo de parar com tais medidas, que têm sido suportadas sempre pelos mesmos». Declarou, ainda, que «existem indicadores económicos que apontam para que se pare com tantos sacrifícios».
Comemora-se um acontecimento de grande significado para o mundo Católico, mas não só. A Páscoa, que deveria ser um evento de alegria, de ressurreição dos bons princípios, valores e sentimentos, que têm vindo a ser ignorados, como: o respeito pelos mais idosos, o trabalho para os desempregados, as reformas/pensões para os que já contribuíram e atingiram a idade para este direito, a inclusão total na sociedade, de todos os marginalizados, enfim, a dignidade de toda a pessoa humana, infelizmente é, ainda, para uma maioria dos portugueses, uma época festiva, talvez e só a nível religioso.
Verifica-se, também, que os valores materiais se têm vindo a sobrepor aos de ordem imaterial, aos sentimentos mais nobres. Tudo gira à volta dos mercados, dos lucros, dos défices, dos números astronómicos da ganância de alguns contra as mais elementares necessidades das maiorias.
Hoje, valores e sentimentos como: a solidariedade, a amizade, a lealdade, a humildade, a gratidão e o amor, por exemplo, são muito difíceis de se vislumbrarem, em algumas elites dominadoras, no entanto, elas, as elites, não podem ignorar que: «O amor é uma energia, a energia mais pura e mais elevada. Nas suas vibrações mais altas, o amor possui sabedoria e consciência. É a energia que une todos os seres. O amor é absoluto e não tem fim.» (BRIAN, 2000:17).
Durante alguns anos, praticamente: têm sido sempre os mesmos a suportar o “fardo”, de uma dívida que não contraíram; têm sido sempre os mesmos a serem privados dos direitos que, por contrato escrito, de boa-fé, celebraram com um Estado que deveria ser, sempre, pessoa de bem. Foi injusto, imoral e, em muitas circunstâncias, de duvidosa legalidade, o que então se impôs a alguns extratos da sociedade portuguesa, precisamente por quem se comprometeu a melhorar as condições de vida da população.
Apesar da situação difícil que ainda se vive: há muita vontade em se acreditar em melhores dias; alguma esperança, calada bem no fundo das nossas consciências, ainda não morreu; um certo e tímido otimismo reina nos espíritos daqueles que continuam a sofrer e a lutar por um futuro melhor, mas para que estes sinais não morram, é necessário que se continuem a anular, de imediato, aquelas medidas gravosas que tanto têm prejudicado a qualidade de vida de milhões de portugueses.
Mais um período Pascal se está a viver, com milhões de portugueses ainda, relativamente, “crucificados” por: impostos, taxas, sobretaxas, comparticipações extraordinárias, desemprego, fome, exclusão; idosos que se “arrastam”, sem terem a certeza de quanto vão receber de reforma e/ou pensão no mês seguinte; centenas de milhares de cidadãos que procuram, desesperadamente, um trabalho; excluídos que continuam a dormir na rua, com fome, sede, frio e doentes; jovens que abandonam a família, os amigos, o país em busca, no estrangeiro, de uma vida de trabalho e de dignidade, a que têm direito, mas que o país lhes recusa; e também, milhares de pessoas que, apesar da idade, ainda poderiam ser úteis à sociedade, com a sua experiência e sabedoria, todavia, são consideradas uma espécie de excluídos especiais, porque: por um lado, não os deixam trabalhar; mas por outro lado, lhes retiraram parte dos rendimentos para os quais labutaram e descontaram décadas.
É tempo de se acabar, definitivamente, com o sofrimento e fazer descer da “Cruz” todos os portugueses que nos últimos anos foram: “crucificados”, injusta, imoral e, quem sabe, ilegalmente; é tempo de se cumprirem promessas feitas em contextos reais e que milhões de portugueses acreditaram e colaboram, para que elas fossem executadas; é tempo de nos ser restituído o respeito, a solidariedade, a dignidade devida a pessoas verdadeiramente humanas.
Os Portugueses são credores, em todo o planeta, de grande admiração, respeito e estima, porque são cumpridores, honestos, trabalhadores, humildes, educados e criativos. Tais qualidades devem ser reconhecidas “cá dentro”, entre todos nós, a começar por quem nos administra e em quem milhões de cidadãos acreditaram, independentemente das opções políticas, religiosas e filosóficas de cada um e dos respetivos estatutos sócio-profissionais. É tempo de “Descrucificar” a população; é tempo de a retirar, definitivamente, da “Pesada Cruz”, a que foi submetida, injustamente, durante alguns, longos, demasiado longos, anos.
Nesta Páscoa, que todos desejamos, finalmente, vivê-la com alegria e esperança, num futuro muito melhor, queremos, apesar de tudo, continuar a alimentar o “sonho da felicidade”, que se pretende realizar através da segurança, da estabilidade no trabalho, na certeza de um fim de vida confortável, sem receios de cortes nas pensões/reformas. Temos direitos adquiridos por contratos firmados, honestamente, imbuídos de boa-fé, com um parceiro que tem o dever de os cumprir e, se possível, melhorar, pelo menos em benefício dos mais carenciados e desprotegidos.
E se é certo que: «A felicidade aumenta com a intervenção social e participação nas organizações beneficientes …» (RICARD, 2005:217), então, é necessário que o Estado se preocupe muito mais com a dimensão social que deve ter para com todos os portugueses, porque temos o direito de sermos felizes, aliás: «Nascemos para sermos felizes» (MARCELO, 2016, in: BÁRTOLO, 2017:Contra-Capa), em várias dimensões: axiológica, trabalho, segurança social, saúde, educação, formação, habitação e lazer, entre outras.
É tempo de se dizer “basta”, de não se crucificar sempre os mesmos. Convoquem-se aqueles que não sendo funcionários públicos, reformados, pensionistas e trabalhadores do setor privado, mas os outros, aqueles que ocupam posições de destaque, bem remuneradas, porque, seguramente, que estes também estarão disponíveis para darem o seu contributo e, desta forma, atenuarem o sacrifício daqueles que nos últimos anos têm vindo a pagar a fatura de uma “despesa” que não fizeram. Corte-se no que é exagerado, nos bens e benefícios supérfluos.
Mais uma Páscoa. Nesta festa da Ressurreição de Cristo Redentor: que se continue com a “ressurreição/restauração” de direitos injustamente retirados; que se prossiga no respeito por todos quantos têm contribuído para que este país seja símbolo do cumprimento dos Direitos Humanos, das Normas Constitucionais, enfim, pela exaltação da dignidade da pessoa humana.
Desejamos a todos os portugueses que nunca mais tenham uma Páscoa tão triste como a que se viveu nos denominados anos “Troikianos”. Queremos para toda a sociedade nacional que se continue a devolver todos os direitos para os quais contribuímos generosamente, sempre de boa-fé. Queremos descer, finalmente, da “Cruz Pesada da Austeridade Injusta”. Queremos Solidariedade, Amizade, Lealdade, Igualdade, Fraternidade, Liberdade. Queremos a nossa Dignidade de Pessoas Verdadeiramente Humanas.
Mas à Cruz Pesada da Austeridade em que os portugueses têm vivido a maior parte do tempo, neste ano de 2021, a Páscoa, enquanto acontecimento religioso e de reunião familiar, não será comemorada festivamente, como sempre aconteceu nos últimos cem anos. Com efeito, a dolorosa pandemia que se alastrou por todo o mundo, colocou-nos em indesejáveis, porém necessários, confinamentos. Milões de pessoas infetada com o COVID-19, outros milhões, ainda que em menor quantidade, já perderam vida, contaminados por esta doença que ninguém sabe quando terminará.


Bibliografia

BAKER, Mark W., (2005). Jesus o Maior Psicólogo que já Existiu. Tradução, Cláudia Gerpe Duarte. Rio de Janeiro: Sextante.
BÁRTOLO, Diamantino Lourenço Rodrigues de, (2017). Em Busca da Felicidade. Lisboa: Chiado Editora.
BRIAN L. Weiss, M.D. (2000). A Divina Sabedoria dos Mestres. Um Guia para a Felicidade, alegria e Paz Interior. Tradução, António Reca de Sousa. Cascais: Pergaminho.
RICARD, Matthieu, (2005). Em Defesa da Felicidade. Tradução Ana Moura. Cascais: Editora Pergaminho, Ld.ª.
Venade/Caminha – Portugal, 2021
Com o protesto da minha permanente GRATIDÃO
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
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