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O Aviso



- Homem ao mar!
- Corram para bombordo. Jangadas pneumáticas para a água.
A voz soou forte na torre de vigia. O grito de alarme propagou-se imediatamente por todo o navio.
Tinha anoitecido havia pouco tempo e a lua-cheia já tinha feito a sua aparição vinda do lado do Oriente. A embarcação navegava serenamente, num mar calmo, levemente ondulado pela brisa noturna de Noroeste. A guarnição já se encontrava nas cobertas, preparando-se para o descanso, depois de um dia de árdua faina de pesca.
Imediatamente o comandante do navio correu para a ponte a fim de coordenar as operações de salvamento.
Quem seria o infeliz que caiu à água? Esta era a interrogação que, inicialmente, se podia ler no semblante de cada um dos vinte tripulantes, do “Senhor do Bom Sucesso”, assim se chamava aquele imponente navio de pesca.
A jangada pneumática já se encontrava na água, equipada com quatro pescadores, boias presas a retenidas e projetores devidamente ligados. Os motores do navio pararam. Outra jangada foi lançada à água, por estibordo, com mais quatro tripulantes, igualmente equipada com os meios de salvação necessários.
Restava, agora, aguardar pelo resultado das buscas que se iniciaram. Era necessária muita prudência, muita paciência e também muita coragem, para o que estivesse para acontecer.
Subitamente ouve-se com bastante nitidez um barulho caraterístico, semelhante a um batimento desordenado, como que batendo na água, parecendo alguém a nadar com muito vigor e desespero.
Uma das jangadas navegou, imediatamente, rumando agora no sentido da popa do “Senhor do Bom Sucesso”, lançando foguetes iluminantes enquanto que os tripulantes proferiam palavras indiciadoras de que algo se encontrava próximo.
A outra jangada, apercebendo-se dos sinais da primeira, rapidamente, rumou para o local, varrendo as águas do oceano com um potente projetor.
Decorridos alguns minutos, as duas embarcações salva-vidas apertavam o cerco das buscas, aproximando-se cada vez mais do barulho que sobre as águas se ouvia claramente, não restando já grandes dúvidas que alguém lutava conta as águas escuras e profundas. De repente, um grito ecoa na noite calma:
- Socorro! Socorro!
Rapidamente foram lançadas boias com retenidas a partir das duas embarcações salva-vidas. O vulto que esbracejava sobre as águas, agarrou-se desesperadamente a uma delas, com violência, com força, com angústia, naturalmente.
Dois tripulantes continuavam a remar, enquanto outros dois puxam a boia com a retenida que a segurava. Então, com o auxílio de um arpão, seguraram, junto da embarcação, o corpo do sinistrado e com extremo cuidado acabaram por o agarrar e metê-lo no interior da jangada, porque na verdade de uma pessoa se tratava e imediatamente foi reconhecido, com um nome que aflorou nos lábios dos tripulantes dos salva-vidas:
- Manel Truta?!
- Como te sentes?
- Como foi isso?
A estupefação, as perguntas, as exclamações sucediam-se. Foi tudo tão rápido que mais parece ninguém estar a contar uma situação destas, logo tendo o Manel Truta por protagonista. No ar, por enquanto, ficava uma interrogação: Porquê e logo àquele pescador teria isto acontecido?
Entretanto e com a urgência que o caso requeria, transportaram o náufrago para o navio principal onde lhe foram prestados os primeiros socorros, próprios para este tipo de acidente. Decorrido algum tempo, cerca de duas horas, o Manel “Truta” recuperava lentamente a consciência e uma primeira pergunta lhe sauí da boca:
- Isabel, onde estás?
Mas quem era afinal o Manel Truta?
Pescador de profissão, casado, pai de cinco filhos de tenra idade – o mais velho teria nove anos-. Homem ainda novo, talvez trinta e cinco anos, alto, robusto, semblante normalmente pálido, embora rugoso devido às condições de vida passa a maior parte do tempo na faina da pesca. Pessoa honesta, muito competente na sua profissão e desde sempre bastante estimado e respeitado pelos companheiros de mar, e também pela população da sua aldeia.
Ele, a esposa e os filhos formavam um casal muito humilde, simples, mas feliz. Não havia ninguém que lhes pudesse apontar algo que os desabonasse. A alcunha “Truta” já vinha de família, de gerações anteriores de gente do mar. Os seus bisavós já tinham sido excelentes pescadores e, caraterística comum, todos nadavam como peixes, como as trutas, contra as correntes, em quaisquer águas, em qualquer época do ano, além de serem considerados, de uma maneira geral, como pessoas extremamente inteligentes, cultas e de bom trato, não obstante a vida dura que todos tinham escolhido. É que na classe piscatória também há pessoas com letra grande.
Mas voltando aos factos e às causas.
Havia vários dias que o Manel “Truta” não era o mesmo homem, principalmente desde que embarcou para esta viagem que agora decorria. Muitos tripulantes verificaram que no cais, aquando das despedidas usuais, a mulher do “Truta” e os filhos, para além da tristeza da circunstância, denotavam uma grande preocupação e podia ler-se no rosto do casal que algo não ia bem entre eles, os choros foram mais intensos, mais profundos e prolongados, e a esposa como que lhe reiterava a fidelidade demonstrada ao longo dos anos, dizendo entre soluços:
- Manel, aconteça o que acontecer, serei sempre tua.
- Tem confiança em mim e não faças asneiras.
- Olha que temos os nossos filhinhos para criar e a nossa felicidade para vivermos toda a vida.
O “Senhor do Bom Sucesso” zarpou, enfim, do porto onde habitualmente fazia praça, os lenços dos familiares continuavam a acenar. Choros, lágrimas em muitos rostos. Assim se iniciava mais uma viagem para a faina da pesca do bacalhau, mais quatro meses longe da família, dos amigos, da aldeia.
Depois das primeiras palavras proferidas pelo Manel “Truta”, alguns companheiros tentaram saber o que estaria na origem do acidente: “Queda à água involuntariamente? Tentativa de Suicídio? Todos os esforços foram gorados, porque naquela noite o Manel “Truta” nada mais disse.
A normalidade voltou ao navio. Cada um ia desempenhando as suas tarefas o melhor que podia e sabia. O Manel “Truta” continuava trabalhando com a competência e dedicação habituais, embora taciturno, triste, retirado, evitando os contatos com os companheiros e, principalmente, com o comandante do navio. No entanto era patente que algo de misterioso pairava no ar.
Uma bela noite, depois da refeição e quando alguns tripulantes mais chegados ao Manel “Truta” estavam reunidos na coberta, vendo este dirigir-se para o camarote, chamaram-no e convidando-o a sentar-se com eles perguntaram:
- Manel, afinal o que é que se está a passar?
- Que causas estão por detrás do teu acidente?
O Manel “Truta” depois de algumas tentativas para não falar e de ter manifestado que ainda não era o momento próprio, acabou finalmente, por aceder aos pedidos dos seus companheiros e começou então, a narrativa dos factos que conduziram ao acidente.
Afirmou que nunca desejou morrer e por isso nunca procurou a morte, como também nunca a pediu para quem quer que fosse. Que, como todos sabiam, a sua vida familiar era agradável, pobre mas feliz e honrada. Amava a mulher e os filhos. Que tinha problemas que lhe estavam a ser criados. Que conhecia alguns casais que perante determinadas situações, eram empurrados para a prática de atos contrários ao matrimónio e aos princípios da fidelidade conjugal!
Um dos tripulantes observou:
- Mas a tua mulher é séria. Namorou e casou contigo. Nunca ninguém a viu com outros rapazes e nada se fala do comportamento dela depois de casada!
- Isso é verdade, respondeu o Manel “Truta”.
Como as interrogações se espelhassem nos rostos dos seus companheiros e, como, entretanto, o capitão do navio ia a passar, o Manel “Truta” contou, então, toda a verdade.
- Eu não me atirei à água. Não senti qualquer indisposição. Não tive qualquer falta de cuidado. Eu fui empurrado para a água para me matarem, porque a minha vida é incómoda para alguém.
- Mas quem poderia cometer semelhante brutalidade, logo perguntam vários pescadores.
- Quem me atirou pela borda fora foi o senhor comandante do navio. Ele tentou seduzir a Isabel e como ela não cedesse aos intentos dele, ameaçou-a que me despediria, que não me dava mais trabalho. Mesmo assim a minha mulher não recuou e pegando numa enxada ainda tentou dar-lhe na cabeça. O comandante retirou-se e disse-lhe que se havia de vingar, que depois de me liquidar, ela, a Isabel, haveria de cair nos braços dele. É esta a verdade que vos devo contar e que de facto se passou.
Perante esta revelação, a tripulação do “Senhor do Bom Sucesso”, dirigiu-se à câmara do comandante, agarraram-no, despiram-no e, preparando uma jangada, lançaram o capitão ao mar. Seguidamente, colocaram a jangada na água e decorrido algum tempo e quando aquele já estava cansado de lutar contra a morte, agarram nele e conduziram-no para o navio. Desde então, capitão Afonso, deixou em paz o Manel “Truta” e a sua esposa Isabel.
“Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti” (KANT)

Venade/Caminha – Portugal, 2020
Com o protesto da minha perene GRATIDÃO

Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal

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